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16 de fevereiro de 2022

Um livro que serve

Para que serve um livro e para que serve a leitura de um livro? Um livro que serve tira-nos dos compartimentos da nossa cabeça, da jaula do eu, do ponto cego da nossa rotina, refaz o real segundo coordenadas inesperadas, informações desconhecidas, dilemas impensados. Talvez seja essa a sua função principal: imaginar o impensado e o insentido, imaginá-los em segundo grau enquanto criação de potencialidade, quer dizer, como pensamento pensável e sentimento sentível por uma nova ordem de linguagem à qual posso aceder exteriorizando-me por instantes nessa espiral de palavras. O livro que serve é a actualização radical dessa potencialidade para quem lê, para quem escreve, para quem edita. É um operador material de inteligência e sensibilidade, um instrumento de crítica da ordem do mundo no interior do sujeito, um espaço de ser que se abre no papel.”

Portela, Manuel, Observador-participante de um catálogo-mundo: a Antígona em 2019” in Oliveira, Luís (org.), Antígona 40 Anos + 1, Lisboa, Antígona, 2020, p. 31.

A Youthful Saint Reading
Girolamo da Santacroce
ca. 1512-25
National Gallery

12 de fevereiro de 2022

Ler o Livro

     No que aos livros diz respeito, esta submissão vazia tem o mais perfeito complemento nas inúmeras defesas da leitura em abstracto recorrentemente emitidas pela «indústria cultural» do século XXI. O potencial emancipatório da capacidade de leitura é inegável, mas «Ler», assim mesmo em abstracto, ler não importa o quê, soa mais a uma ordem ou um comando do que a qualquer desafio ou convite à reflexão. A mesma forma vazia encontra-se nos textos encomendados aos habituais intelectuais de serviço em defesa do «Livro» em geral como objecto especial ou mágico. Estes elogios pseudopoéticos ao livro em abstracto são a publicidade da forma vazia da «indústria cultural», indiferente a qualquer conteúdo desde que este seja bom para o negócio.”

Lamas, Bruno, Enquanto existir dinheiro…” in Oliveira, Luís (org.), Antígona 40 Anos + 1, Lisboa, Antígona, 2020, p. 104.

The Painter's Father, Louis-Auguste Cézanne
Paul Cézanne
ca. 1865
National Gallery

30 de janeiro de 2022

Editar livros

Ser editor, editar livros, foi outrora uma tarefa carregada de aura e distinção. Os livros eram o meio fundamental de socialização da cultura, e aquilo que a partir do Iluminismo se definiu como «espaço público» correspondia em grande medida a um espaço público literário, isto é, moldado pelos livros e pela leitura. Muita coisa mudou, neste plano, sobretudo a partir do momento em que os livros ─ e a literatura ─ perderam uma boa parte do seu poder e a sua esfera de irradiação enfraqueceu. Não é que a produção editorial de livros impressos tenha diminuído. Muito pelo contrário: os balanços e diagnósticos periódicos da actividade nesta área, conformada em grande medida aos verdadeiros critérios industriais e comerciais da mercadoria, apontam para uma doença de sinal contrário, para o excesso e não para a falta. A obesidade é o aspecto mais marcante desta indústria, que, no fundo, nunca prescindiu de afirmar discretamente que não é como outra qualquer.”

Guerreiro, António, Uma editora lenta e com marca” in Oliveira, Luís (org.), Antígona 40 Anos + 1, Lisboa, Antígona, 2020, p. 119.


Eça de Queirós e os filhos

26 de outubro de 2021

O leitor tolo

Brant, Sebastian, Das NarrenschiffBasileia, Johann Bergmann1494. (A nau dos insensatos ou A nave dos loucos)

    "O texto descreve uma viagem fictícia por mar de 112 insensatos, cada um representando um certo tipo de conduta humana, para a terra prometida de “Narragônia”. A sucessão de insensatos é liderada pelo leitor tolo: convencido de sua aprendizagem, ele está empenhado em espantar as moscas que zumbem em torno de sua mesa abarrotada de livros, mas ele não abre os livros para adquirir conhecimentos." daqui

23 de maio de 2021

Mulher a ler

Springtime
Monet
1872

"Monet moved to Argenteuil, a suburban town on the right bank of the Seine River northwest of Paris, in late December 1871. Many of the types of scenes that he and the other Impressionists favored could be found in this small town, conveniently connected by rail to nearby Paris. In this painting, Monet was less interested in capturing a likeness than in studying how unblended dabs of color could suggest the effect of brilliant sunlight filtered through leaves. During the early 1870s, Monet frequently depicted views of his backyard garden that included his wife, Camille, and their son, Jean. However, when exhibited at the Second Impressionist Exhibition in 1876, this painting was titled more generically, "Woman Reading."

15 de maio de 2021

Leituras

Leti, Gregorio, Critique historique, politique, morale, économique & comique sur les lotteries, anciennes & modernes, spirituelles, & temporelles, des etats, & des eglises, tome premier, Amsterdam, chez Theodore Boeteman, 1697. Daqui

7 de maio de 2021

Ler

Saint Paul seated reading
After Jacob de Gheyn III
about 1620

"Jacob de Gheyn III learned painting and engraving from his father, Jacob de Gheyn II. It’s unclear if this painting is a copy after de Gheyn III’s etching of the same subject, or if the painting was made first." Daqui

17 de abril de 2021

Os inimigos dos livros

"Les livres ont les mêmes ennemis que l’homme: le feu, l’humide, les bêtes, le temps; et leur propre contenu."
Littérature (Tel Quel I)

Valéry, Paul, OeuvresTome II, (Jean Hytier (ed.)), [Paris], Gallimard, 1960.

projet de décor de bibliothèque
atelier de François-Joseph Bélanger
vers 1770/1790

10 de março de 2021

Ler para derrotar o fascismo

"Leed. Combatiendo la ignorancia derrotareis al fascismo. El Ministerio de Instrucción Pública abre bibliotecas para el pueblo"
Ministerio de Instrucción Pública y Bellas Artes
[1936?]


"Leed. Combatiendo la ignorancia derrotareis al fascismo. El Ministerio de Instrucción Pública abre las bibliotecas al pueblo. Si no puedes leer en la biblioteca pide en ella libros para leerlos en tu casa"
Ministerio de Instrucción Pública y Bellas Artes
[1937?]

8 de março de 2021

Máquina para ler




Ramelli, Agostino, Le diverse et artificiose machine del capitano Agostino Ramelli..., Paris, in casa del'autore, 1588, pp. 316-317. Daqui

1 de março de 2021

A biblioteca de Fernando Pessoa

    "Ao longo de quase 37 anos – entre 1898 e 1935 – Fernando Pessoa foi reunindo livros, revistas, jornais, recortes de imprensa e folhetos que, gradualmente, vieram integrar uma surpreendente biblioteca multilingue que abrange 8 idiomas, mais da metade em inglês.

    Para o progressivo crescimento dessa biblioteca foram muito importantes os prémios escolares, as compras (directas e por correspondência), as aquisições em segunda mão, as permutas, as heranças e as ofertas de volumes. Presumimos que muitos dos livros escritos em português foram oferecidos a Pessoa porque estes contêm dedicatórias. É importante frisar que as dedicatórias se encontram em livros portugueses porque Pessoa comprava mais livros em inglês e em francês do que em português. De facto, a sua biblioteca particular teria mais volumes de obras francesas do que portuguesas se a Pessoa não lhe tivessem sido oferecidas muitas das obras portuguesas existentes." Daqui


Retrato de Fernando Pessoa
José de Almada Negreiros
1964

30 de dezembro de 2020

Luiz Pacheco - solidão e livros

"De facto, nos primeiros anos, o convívio humano do jovem Pacheco, em particular com outras crianças, era reduzido, tendo de se entender sozinho com as fantasias próprias da sua idade. As ausências da mãe, mais as discussões entre os pais, numa etapa tão importante na formação da personalidade, fizeram dele uma criança tímida e solitária (tal como não lhe dariam, mais tarde, desenvoltura e segurança na escola). O seu gosto pela solidão era um gosto de sobrevivência face à sua situação infantil, vivida como problemática (portanto, o constrangimento precedeu-lhe o gosto).
(...)
A sua solidão, determinada pelos acontecimentos da sua vida, imposta pelas suas condições de existência, levou-o a refugiar-se nos livros, a virar-se para uma actividade simultaneamente mais pessoal e mais compensadora como a leitura (assim como a escrita, que também necessita de solidão, serviu mais tarde para trabalhar literariamente os seus problemas) (...)."

George, João Pedro, Puta que os pariu! A biografia de Luiz Pacheco, Lisboa, Tinta-da-China, 2011, p. 34. 

1 de dezembro de 2020

Biblioteca - o leitor

    "O espaço esterilizado e vazio que triunfa hoje na nova concepção bibliotecária também não tem muito que oferecer ao leitor conspícuo, ao leitor "de sempre". Refiro-me ao leitor que somatiza e vive a leitura, não ao mero consultor de fluidos de informação. Um leitor, por certo, incómodo e hoje erradicado, perseguido, em vias de total extinção. Leitor que ri com Demócrito e chora com Heraclito (ou talvez ao contrário), que se levanta e passeia, que urina com frequência, que expectora e espirra, que se penteia e se coça... Leitor que costuma levantar os olhos do poema de amor para seguir as pernas da rapariga (ou o dorso do rapaz) que cruza o campo visual, isto é, um leitor nem sempre completamente concentrado na leitura."

Rodríguez de la Flor, Fernando, Biblioclasmo. Por uma prática crítica da lecto-escrita, Lisboa, Livros Cotovia, 2004, p. 79.

Edward Richard Taylor, Birmingham Reference Library - The Reading Room, 1881 (Daqui)