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27 de julho de 2022

Identificação comunal

    Nas últimas duas gerações, os europeus ocidentais perderam ou abandonaram muitas das tradicionais instituições integradoras da vida pública moderna. Quando comparado com há meio século, o papel da família, da Igreja ou do exército é hoje ínfimo na maioria dos países ocidentais. Os partidos políticos e os sindicatos já não desempenham a função pedagógica e organizativa que tiveram na Europa durante mais de um século. Ao mesmo tempo, as pressões económicas estão a tentar os governos a reduzir os benefícios adquiridos da segurança social, e estão a desaparecer os componentes essenciais daquilo a que os Franceses chamam solidarité. Pode muito bem acontecer que a nação – com a comunhão de memória que a representa e o Estado que a simboliza, com o seu enquadramento familiar e ajustado – seja a única fonte coletiva e de identificação comunal que reste, e também a mais adaptável. Dado o colapso impressionante dos grandes objetivos universais e abstratos da utopia socialista, e da promessa insustentável de uma união continental cada vez maior e mais próspera, talvez as virtudes de uma unidade social baseada na propriedade geográfica e radicadas no passado, em vez de no futuro, tenham sido mitigadas. Seja como for, uma maior atenção às virtudes da nação e ao seu Estado, por parte dos políticos respeitáveis (e, por contraste, menos atenção às maravilhas da «Europa»), podem ajudar a recuperá-la dos braços dos seus pretendentes mais extremistas.”

Judt, Tony, Uma Grande Ilusão? Um Ensaio sobre a Europa, Lisboa, Edições 70, 2012, pp. 119-120.


Stefanos
Grécia
2013

20 de janeiro de 2022

Trabalho infantil em Lisboa

"Em Lisboa, as criancinhas são realmente importantes, pois é frequente que sejam elas a única fonte de sustento das suas famílias. óptimas leis sobre a utilização de crianças no trabalho excelentes, de facto, mas que não abrangem as indústrias onde o trabalho infantil é mais explorado. Destas, as principais são as indústrias da hotelaria e da restauração. Rapazinhos de uniforme, lidos e cansados, são vistos a abrir e fechar as portas dos elevadores nos hotéis de Lisboa até à meia-noite, começando a trabalhar de manhã cedo.
    Os clubes nocturnos de Lisboa oferecem um emocionante início de vida aos rapazinhos de Lisboa. (…) Os portugueses têm um conceito de cortesia que os faz considerar como incorrecto o comportamento de uma mulher, mesmo uma prostituta, que aborda diretamente um homem; e, assim, dezenas de rapazinhos nos clubes nocturnos a levar mensagens escritas das raparigas para os seus clientes. Começam a trabalhar por volta da meia-noite e terminam às cinco ou seis da manhã.
    Quando a Comissão formada pela Liga das Nações para investigar o tráfico de escravatura branca visitou Lisboa, descobriu que, do total de prostitutas registadas, havia 1720 cerca de quarenta por cento ‒ que tinham menos de vinte anos. Eis o que uma madame disse à Comissão: «Portugal é o único país que eu conheço onde uma rapariga de catorze anos pode entrar para uma casa». Quando lhe perguntaram se «os pais não levantam objecções», ela respondeu: «Eles é que as trazem para aqui. As raparigas mandam todo o seu dinheiro para casa.»
    Isto foi em 1924. Mas se a Comissão visitasse Lisboa novamente, ia descobrir que as coisas não mudaram muito, apenas se tornaram menos públicas. Os rapazes nos cabarets e as raparigas no[s] bordéis ainda continuam a «mandar todo o seu dinheiro para casa».”

Fox, Ralph, Portugal Now, Lisboa, Tinta-da-China, 2006, pp. 107-109.


Ardinas, vendedores de jornais
Paulo Guedes
19??

19 de janeiro de 2022

As famílias dos bispos ingleses

Não sei se o meu leitor terá dado por isso, mas eu já mais de uma vez notei que a classe de gente mais orgulhosa de toda a Inglaterra (mais orgulhosa, pelo menos, na aparência) são os familiares dos bispos. Os nobres e respectivos filhos transportam nos títulos que possuem justificação bastante para os cargos que desempenham. Os nomes, só por si (e aplica-se isto também a filhos de casas que não são titulares), soam aos ouvidos ingleses como um garante de nascimento e ascendência nobre. (...) Há sempre nos seus modos uma certa justeza e, quando por acaso precisam de impor aos outros o sentimento da sua importância, dispõem dos milhentos recursos com que a cortesia e a condescendência temperam todos os seus actos. Com as famílias dos bispos, tudo se passa de maneira diferente; fazem os impossíveis para tornarem reconhecidas as suas pretensões. A proporção de bispos vindos de famílias nobres é muito reduzida; e as sucessões processam-se tão rapidamente que os ouvidos do público mal têm tempo para se familiarizar com os seus nomes, excepto quando andam associados à fama literária. Daí vem que os filhos dos bispos apresentem semblantes severos e antipáticos, indício de pretensões que não lhes foram reconhecidas, e tenham um ar de noli me tangere, um receio de toda e qualquer familiaridade que os leva a recuar e fugir, como foge o gotoso do contacto com oί πολλι. É evidente que uma grande capacidade de entendimento e um feitio excepcionalmente bondoso preservariam um homem dessas fraquezas; mas há-de, no geral, reconhecer-se a verdade do que afirmo: em tais famílias, se não estiver enraizado lá no fundo, o orgulho não deixa de estar sempre evidente à superfície. Este espírito, naturalmente, comunica-se à criadagem e a outros dependentes.”

Quincey, Thomas de, Confissões de um opiómano inglês, s. l., Alfabeto, 2011, pp. 30-32.


The Seven Bishops Committed to the Tower in 1688
Artista deconhecido
based on a work of circa 1689

6 de outubro de 2021

Os Wittgenstein e o suicídio

"Three of Ludwig’s brothers—Hans, Rudolf, and Kurt—committed suicide, the first two after rebelling against their father’s wish that they pursue careers in industry." daqui

Paul, Hermine, Margarethe, Ludwig, Helene