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22 de junho de 2022

Manuscritos

Carta de Massamá de Luiz Pacheco para Laureano Barros, 16/02/74

    “(...) Eu não sei se o Laureano Barros terá tido por aí conhecimento: chegou agora a Portugal, por via talvez da desvalorização da moeda e de haver muito dinheiro em poucas mãos, que já nem sabem como o hão-de empregar mais rendosamente, o culto pelo Autor, isto é, as coisinhas que os escribas deixam. Viu-se isso há pouco, foi um teste decisivo e para muitos inesperado (forte surpresa! era prática centenária no Lá Fora; ainda li há dias, que o [D. H.] Lawrence obtivera uma quinta solarenga no Novo México em troca do manuscrito de um dos seus romances e fez isso mais vezes), no leilão a favor da Associação de Escritores Portugueses. Convidado a dar, não respondi; insistido, disse que sim e faltei. Aquilo meteu-me raiva, embora por dentro me rejubilasse: é que vi (soube pelos jornais) fazerem-se manuscritos de propósito para o leilão. O que me cheira a jactância. Seremos na verdade assim tão importantes?”

Pacheco, Luiz, O Grilo na Varanda – Luiz Pacheco para Laureano Barros (Correspondência, 1966-2001), transcrição, introdução e notas de João Pedro George, Lisboa, Tinta-da-China, 2017, p. 137.


Auto da morte: manuscrito/fragmento
Fernando Pessoa
Lisboa
19--

13 de novembro de 2021

A alma humana é porca como um ânus

Álvaro de Campos

A alma humana é porca como um ânus

E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.

Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago.

A Távola Redonda foi vendida a peso,

E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a.

Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil distante.

Está frio.
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile —
O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância.
Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros.
E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração.

Sim, está frio...

Está frio em tudo que sou, está frio...

Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...

E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.

Engelho o capote à minha volta...

O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...

A multiplicidade da humanidade misturada

Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas...

Sim, a vida...

Meus ombros descaem tanto que o capote resvala...

Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote.

Ah, parte a cara à vida!

Levanta-te com estrondo no sossego de ti!


s.d.

daqui



Derrick Cross
Robert Mapplethorpe
1983

5 de novembro de 2021

Se eu morrer novo

Alberto Caeiro
Se eu morrer novo,

Se eu morrer novo,

Sem poder publicar livro nenhum,

Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa

Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,

Que não se ralem.

Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,

Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.

Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,

Porque as raízes podem estar debaixo da terra

Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.

Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:

Nunca fui senão uma criança que brincava.

Fui gentio como o sol e a água,

De uma religião universal que só os homens não têm.

Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,

Nem procurei achar nada,

Nem achei que houvesse mais explicação

Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva —

Ao sol quando havia sol

E à chuva quando estava chovendo

(E nunca a outra coisa),

Sentir calor e frio e vento,

E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,

Mas não fui amado.

Não fui amado pela única grande razão —

Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,

E sentando-me outra vez à porta de casa.

Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados

Como para os que o não são.

Sentir é estar distraído.


7-11-1915

Fernando Pessoa e Almada Negreiros
Júlio Pomar
1983

19 de outubro de 2021

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó

(O vento lá fora).

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Vénus de Milo

1 de março de 2021

A biblioteca de Fernando Pessoa

    "Ao longo de quase 37 anos – entre 1898 e 1935 – Fernando Pessoa foi reunindo livros, revistas, jornais, recortes de imprensa e folhetos que, gradualmente, vieram integrar uma surpreendente biblioteca multilingue que abrange 8 idiomas, mais da metade em inglês.

    Para o progressivo crescimento dessa biblioteca foram muito importantes os prémios escolares, as compras (directas e por correspondência), as aquisições em segunda mão, as permutas, as heranças e as ofertas de volumes. Presumimos que muitos dos livros escritos em português foram oferecidos a Pessoa porque estes contêm dedicatórias. É importante frisar que as dedicatórias se encontram em livros portugueses porque Pessoa comprava mais livros em inglês e em francês do que em português. De facto, a sua biblioteca particular teria mais volumes de obras francesas do que portuguesas se a Pessoa não lhe tivessem sido oferecidas muitas das obras portuguesas existentes." Daqui


Retrato de Fernando Pessoa
José de Almada Negreiros
1964