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17 de maio de 2022

O padre, o frade e o fidalgo

“Quer dizer, se em França a nação se criara contra o «antigo regime» e, em Espanha, contra ele e o invasor, na crise portuguesa de 1807-1812 a nação surgiu em oposição ao francês (como era inevitável) mas sobretudo em oposição ao «afrancesado». Nestas condições, ficou desde o seu princípio identificada ao padre, ao frade e ao fidalgo, verdadeiros depositários de tudo o que ela possuía de singular (e, portanto, de sagrado) e últimos baluartes da sua defesa contra aqueles que de fora a procuravam vencer ou corromper, pelas armas ou pelas ideias. É inútil sublinhar a persistência desta visão na história futura do país. Em Portugal, o nacionalismo não teve como no resto da Europa um conteúdo laico e liberalizante (excepto nos breves episódios da Patuleia e da propaganda republicana entre 1890 e 1910). Pelo contrário, quase sempre não se distinguiu do ultramontanismo católico e das causas típicas da conservação.”

Valente, Vasco Pulido, Ir prò Maneta. A Revolta contra os Franceses (1808), Lisboa, Alêtheia Editores, 2007, pp. 49-50.

Sopa de Arroios

Domingos António Sequeira e Gregório Francisco de Queirós
1813


"Dom. Ant. de Sequeira Ac. Rom. inv. del. e abrio os cont. das figuras
Greg. Fran.co de Queiroz esculpio as figuras a Agoa Forte e a buril em 1813

"A S. A. R. O Principe Regente Nosso Senhor,
Augusto, Pio, Magnanimo, Pai da Patria,
D. O. C. 
Domingos Antonio de Sequeira, Luzitano, 
Primeiro Pintor da Camera e Corte de S. A. R; Mestre dos Ser.mos Snr.es  Principe, e Infantes, Academico de Merito na Inclyta Academia de S Lucas em Roma, e das principaes da Italia, Director da Aula do Desenho na Real Academia da Marinha da Cidade do Porto, esta Estampa, que copiou do natural Representa a distribuição do alimento, qe se Repartia no Cruzeiro de Arroios aos infelizes emigrados qe desamparárão as suas terras assoladas pelo Exercito Francez na invasão de Outubro de 1810, e forão acolhidos, hospedados, e sustentados pelos moradores de Lisboa com o mais louvavel patriotismo, e humanidade."

15 de maio de 2022

1808 e o clero

“No caos político e civil da Primavera e Verão de 1808, raríssimas pessoas gozavam de um tão invejável poder, e certamente nenhum grupo social, a não ser o clero. O que se revelou decisivo, já que, em última análise, foi o clero que acabou por dar um conteúdo ideológico à luta que se tratava, impedindo que ela se concebesse apenas como uma luta pela Pátria, contra o estrangeiro e contra os senhores (magistrados, fidalgos, militares, chefes da Igreja) que com ele, em diversos graus, haviam pactuado; e transformando-a também numa guerra de religião em que o inimigo, francês ou português, surgia sobretudo como o inimigo de Deus, o jacobino, o anarquista. Ou seja, a participação dos frades no levantamento conservou-lhes a autoridade e permitiu-lhes desviá-lo para um sentido eminentemente conservador.”

Valente, Vasco Pulido, Ir prò Maneta. A Revolta contra os Franceses (1808), Lisboa, Alêtheia Editores, 2007, pp. 42-43.

Cirilo Volkmar Machado
Série das Invasões Francesas, d. 97p
entre 1807 e 1809?

"Profanações dos Templos.
Os abominaveis soldados de Napoleaõ, manchaõ sacriligamente os Templos de Deos com ex-ecraveis insultos desprezaõ as Santas Imagens partem-nas e as lanção no fogo e…
A Religião de vosso Pais, a mesma que todos professamos…será protejada e socorrida pella mesma vontade. Junot. Edital 1 de Fevereiro de 1808. Grande socorro, grande protecção. para a Religiaõ, lancarem as Imagens sagradas no fogo. Bella fraze."

11 de maio de 2022

Colaboracionismo em 1808

     “Quanto aos senhores com um cadastro de colaboracionismo dividiam-se em dois grupos. Os que se haviam limitado a fazer o necessário para conservar as suas cabeças, bens e lugares e que puderam convictamente fingir que não passavam de vítimas inocentes do tirano, com pleno direito a um lugar privilegiado na nova ordem de coisas. E aqueles cujo zelo em servir o «governo intruso» não permitia contestação. Estes últimos dividiam-se ainda  em duas categorias, consoante o lugar que ocupavam na hierarquia do Estado, da Igreja ou da sociedade (que, aliás, se confundiam e sobrepunham). Se se tratava de pessoas com posições exaltadas (bispos, generais, desembargadores, titulares) considerou-se que a sua queda encorajaria o «frenesim da canalha» e os comparsas menores protegeram-nos, apoiaram-nos e escolheram-nos (ao menos, pela forma) para presidir às instituições revolucionárias. Foi o caso de quase todos os bispos, mesmo os mais «afrancesados», como o do Porto e o do Algarve, de quase todos os generais governadores militares das províncias, de dezenas de fidalgos e de alguns magistrados. Se se tratava, porém, de criaturas sem prestígio, nem peso, ou se lembraram de fugir na boa altura, ou o «povo» de várias maneiras se encarregou delas, ou, quando se viram instaladas, as novas autoridades tentaram discretamente salvá-las do ódio geral.”

Valente, Vasco Pulido, Ir prò Maneta. A Revolta contra os Franceses (1808), Lisboa, Alêtheia Editores, 2007, p. 36.


Vista da Praça do Rocio, na qual se reprezenta a dezordem e terror dos Francezes no dia do Corpo de Deos no anno de 1808, os quaes tumultuozamente largaraõ as Armas e dezempararaõ a Artilheria pelo susto que o povo lhes cauzou e os boatos que corrião = já chegaraõ os Inglezes