18 de janeiro de 2022

A reforma do território

O país é pequeno, não tem indústria, e a sua população é rústica e consideravelmente iletrada. A tarefa de tornar próspero e bem administrado um estado como este, nas actuais condições em que se encontra a Europa, era um objectivo que desanimaria os mais audazes. A reforma do território, nomeadamente a divisão de grandes propriedades no sul, a abolição de resquícios feudais no sistema de propriedade que ainda estrangulam os esforços dos pequenos proprietários rurais, as graduais restrições à influência da Igreja, a educação, a irrigação, a energia barata, uma boa rede de comunicações, a cooperação comercial e os créditos acessíveis para os agricultores ‒ tudo isto podia ter feito de Portugal uma segunda Dinamarca.”

Fox, Ralph, Portugal Now, Lisboa, Tinta-da-China, 2006, pp. 79-80.

Milheiral
Carlos Reis
c. 1889
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado

17 de janeiro de 2022

Um filósofo

Porque um filósofo não deve ver as coisas com os olhos dessa criatura pobre e limitada que a si próprio se intitula homem de sociedade, cheio de preconceitos mesquinhos e egoístas a respeito do nascimento e da educação; deve antes considerar-se uma criatura católica e dar-se igualmente com os que estão no cimo e com os que estão na base, com os que tiveram educação e com os que não a tiveram, com os culpados e com os inocentes.”

Quincey, Thomas de, Confissões de um opiómano inglês, s. l., Alfabeto, 2011, p. 49.

Philosophe au livre ouvert
Salomon de Koninck
2e quart du XVIIe siècle (1640-1650)

16 de janeiro de 2022

Foices e martelos em moedas

    “Nas paredes dos prédios em construção, nos jardins, nos lavatórios, vê-se o emblema comunista da foice e do martelo desenhado com tinta ou com giz. O governo está em pânico porque anda uma força misteriosa a gravar o emblema da foice e do martelo nas velas da caravela que ornamenta a moeda de dez escudos. No início, começaram por declarar que era ilegal pagar com esse dinheiro marcado, mas as moedas tornaram-se tão vulgares que a medida acabou por se revelar inaplicável. Tinham de ser aceites, mas se pagássemos com uma delas já sabíamos que a polícia secreta nos submeteria a um interrogatório para tentar descobrir a sua origem. Em Lisboa, toda a gente falava das moedas de dez escudos. É um truque infantil, sem dúvida, mas foi suficiente para assustar a ditadura, com a sua polícia e as suas poderosas forças armadas.”

Fox, Ralph, Portugal Now, Lisboa, Tinta-da-China, 2006, pp. 114-115.


Autocolante da célula do PCP de Campolide

15 de janeiro de 2022

Ópio

Mas, 2. (e aqui ficará o leitor surpreendido) há uns anos a esta parte, passando eu por Manchester, fui por vários industriais do algodão informado de que entre os seus operários se estava a espalhar o hábito de tomar ópio, e a tal ponto que, nos sábados à tarde, os balcões das farmácias se viam cobertos de pílulas de um, dois ou três grãos, à espera dos clientes que apareciam à noite. Causa imediata desta prática eram os baixos salários que, nesse tempo, não lhes permitiam adquirir cerveja ou álcool. Com a subida dos salários, poderia desaparecer o dito hábito.”

Quincey, Thomas de, Confissões de um opiómano inglês, s. l., Alfabeto, 2011, pp. 12-13.


Opium-Smokers
Xangai, China
1874
Adolf-Nikolay Erazmovich Boiarskii
Expedição cientifico-comercial russa à China, 1874-75

14 de janeiro de 2022

Ignorância, estupidez e falta de gosto

    “Na história recente de Portugal, há um aspecto de fundo que deve ser compreendido antes de julgarmos as pretensões do seu actual governante. A monarquia, representada pelos membros da Casa de Bragança, não era popular nem respeitada. Enquanto nação, Portugal sempre foi mais imune à influência dos padres do que a Espanha, mas a monarquia tinha relações muito estreitas com a Igreja, isto é, com o reaccionarismo político e social, com o obscurantismo, a sujidade, a ignorância e a pestilência generalizada. A administração era corrupta, o povo pagava impostos excessivos e vivia na miséria, o país estava na bancarrota. (...) Os palácios reais portugueses, que continuam no mesmo estado em que a família real os deixou quando fugiu apressadamente em 1910, são, tal como os palácios reais em todos os outros países, monumentos à ignorância, à estupidez e a uma quase inacreditável falta de gosto dos seus proprietários.”

Fox, Ralph, Portugal Now, Lisboa, Tinta-da-China, 2006, pp. 78-79.

Família Real Portuguesa
"Rei D. Luís / fardado como oficial da marinha / sentado / Maria Pia / vestido claro / sentada / D. Carlos e D. Afonso fardados como oficiais do exército / em pé."
1870 - 1872

13 de janeiro de 2022

Ratazanas

Cumpri o serviço militar servindo no exército durante a Grande Guerra, desde Dezembro de 1914 até Agosto de 1918, mas como soldado raso. (...)    
    Tenho um tal terror a ratazanas, que, durante a guerra, assustaram-me mais do que os Alemães. Recordo ainda claramente uma noite de pesadelo passada no «acampamento dos caixotes do lixo» perto de Poperinghe, local imundo e fervilhante de ratazanas, para onde se deslocaram tropas durante anos, para «descanso». Passei toda a noite em claro, deitado na tenda de campanha, a acender velas umas atrás das outras, e, mesmo assim, não resolvi o problema. Uma ratazana enorme começou a correr por cima do meu cobertor. Bati com os pés para tentar atirá-la ao chão, mas em vez disso foi pelo ar e acabou por cair precisamente em cima da minha cara! Vinte anos depois, sinto calafrios de horror e repugnância quando evoco tal episódio. A propósito, lembro-me ainda de outra noite, desta vez no sector perto de St. Julien, quando estava de serviço como maqueiro. Foi numa noite escura como breu. Estávamos todos deitados nas carateras abertas pelas granadas, cheias de água, aguardando melhor sorte, de minuto a minuto, era lançado um «very Light» que nos permitia ver um pouco naquelas trevas. A três ou quatro jardas de distância, distingui um cadáver, nosso ou alemão. À luz lívida e esverdeada vislumbrei meia dúzia de obscenas vampiresas do tamanho de coelhos em volta do cadáver. Recordo que fiquei meio louco de pavor e humilhação, por me considerar um homem e não ter coragem de avançar por terra de ninguém e recuperar o cadáver. Por fim, acabei por pedir a alguém que atirasse uma granada para evitar que o corpo fosse profanado.”

Gibbons, John, Não Criei Musgo. Retrato de uma Aldeia Transmontana, Carrazeda de Ansiães, Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães, 2004, pp. 149-151.


Família de ratos ambulantes
c. 1880 - c. 1930

12 de janeiro de 2022

Vinho do Porto, cortiça e sardinhas

Portugal é um país pequeno. Os seus poucos camponeses morenos, com as suas escuras vestes rústicas, com os seus barretes negros com borlas que fazem lembrar toucas de dormir , são obrigados a trabalhar arduamente na terra castanha e queimada para poderem pagar a escassa água que irriga os seus terrenos ressequidos; os próprios terrenos são muito pequenos, pouco maiores do que o jardim de uma família inglesa suburbana da classe média. Eles trabalham com um pedaço de pão, uma peça de fruta e vinho para produzir vinho do Porto e cortiça para exportar. E os pescadores enfrentam os temporais do Atlântico para termos sardinhas. Eis tudo o que este pequeno país oferece ao mundo: vinho do porto, cortiça e sardinhas. Não tem indústria e só começou a produzir o seu próprio pão nos dois últimos anos.”

Fox, Ralph, Portugal Now, Lisboa, Tinta-da-China, 2006, p. 93.


Velho camponês e criança
Eduardo Portugal
Aldeia da Quinta do Anjo, Palmela
[entre 1890 e 1945]