"O diletante, com efeito, corre entre as ideias e os factos como as borboletas (a quem é desde séculos comparado) correm entre as flores, para pousar, retomar logo o voo estouvado, encontrando nessa fugidia mutabilidade o deleite supremo." Eça de Queirós, A Correspondência de Fradique Mendes (Memórias e Notas)
18 de janeiro de 2022
A reforma do território
17 de janeiro de 2022
Um filósofo
16 de janeiro de 2022
Foices e martelos em moedas
15 de janeiro de 2022
Ópio
“Mas, 2. (e aqui ficará o leitor surpreendido) há uns anos a esta parte, passando eu por Manchester, fui por vários industriais do algodão informado de que entre os seus operários se estava a espalhar o hábito de tomar ópio, e a tal ponto que, nos sábados à tarde, os balcões das farmácias se viam cobertos de pílulas de um, dois ou três grãos, à espera dos clientes que apareciam à noite. Causa imediata desta prática eram os baixos salários que, nesse tempo, não lhes permitiam adquirir cerveja ou álcool. Com a subida dos salários, poderia desaparecer o dito hábito.”
Quincey, Thomas de, Confissões de um opiómano inglês, s. l., Alfabeto, 2011, pp. 12-13.
14 de janeiro de 2022
Ignorância, estupidez e falta de gosto
13 de janeiro de 2022
Ratazanas
Tenho um tal terror a ratazanas, que, durante a guerra, assustaram-me mais do que os Alemães. Recordo ainda claramente uma noite de pesadelo passada no «acampamento dos caixotes do lixo» perto de Poperinghe, local imundo e fervilhante de ratazanas, para onde se deslocaram tropas durante anos, para «descanso». Passei toda a noite em claro, deitado na tenda de campanha, a acender velas umas atrás das outras, e, mesmo assim, não resolvi o problema. Uma ratazana enorme começou a correr por cima do meu cobertor. Bati com os pés para tentar atirá-la ao chão, mas em vez disso foi pelo ar e acabou por cair precisamente em cima da minha cara! Vinte anos depois, sinto calafrios de horror e repugnância quando evoco tal episódio. A propósito, lembro-me ainda de outra noite, desta vez no sector perto de St. Julien, quando estava de serviço como maqueiro. Foi numa noite escura como breu. Estávamos todos deitados nas carateras abertas pelas granadas, cheias de água, aguardando melhor sorte, de minuto a minuto, era lançado um «very Light» que nos permitia ver um pouco naquelas trevas. A três ou quatro jardas de distância, distingui um cadáver, nosso ou alemão. À luz lívida e esverdeada vislumbrei meia dúzia de obscenas vampiresas do tamanho de coelhos em volta do cadáver. Recordo que fiquei meio louco de pavor e humilhação, por me considerar um homem e não ter coragem de avançar por terra de ninguém e recuperar o cadáver. Por fim, acabei por pedir a alguém que atirasse uma granada para evitar que o corpo fosse profanado.”
Gibbons, John, Não Criei Musgo. Retrato de uma Aldeia Transmontana, Carrazeda de Ansiães, Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães, 2004, pp. 149-151.
12 de janeiro de 2022
Vinho do Porto, cortiça e sardinhas
“Portugal é um país pequeno. Os seus poucos camponeses morenos, com as suas escuras vestes rústicas, com os seus barretes negros com borlas ‒ que fazem lembrar toucas de dormir ‒, são obrigados a trabalhar arduamente na terra castanha e queimada para poderem pagar a escassa água que irriga os seus terrenos ressequidos; os próprios terrenos são muito pequenos, pouco maiores do que o jardim de uma família inglesa suburbana da classe média. Eles trabalham ‒ com um pedaço de pão, uma peça de fruta e vinho ‒ para produzir vinho do Porto e cortiça para exportar. E os pescadores enfrentam os temporais do Atlântico para termos sardinhas. Eis tudo o que este pequeno país oferece ao mundo: vinho do porto, cortiça e sardinhas. Não tem indústria e só começou a produzir o seu próprio pão nos dois últimos anos.”
Fox, Ralph, Portugal Now, Lisboa, Tinta-da-China, 2006, p. 93.